Minha relação com o Merkén começou por Sebastian, meu irmão. Nós conhecíamos desde criança, mas por ser tão apimentado, para nós era proibido. Quando crescemos, ele insistiu em que o Merkén fosse o íntimo amigo do sal na mesa e inseparável companheiro do arroz, ovo, massas… Mas como alguma insípida verdura também se escandalizou com o seu ousado sabor.

Esse maravilhoso pó vermelho é um condimento que provem dos nossos ancestrais, os Mapuches, povo originário do Sul do Chile, igual ao meu irmão e eu. Por isso a gente sempre soube a história sobre esse mapuche que, em algum lugar, recolhe a pimenta vermelha (ají cacho de cabra) quando ainda está verde, para deixar secar embaixo do arisco sol dessas terras. Com paciência ele deixa ficar vermelho, para logo, e com mais paciência ainda, deixá-lo secar, defuma-lo com as aromáticas madeiras dos bosques chuvosos e deixá-lo pendurado por um tempo mais longo ainda, para que o sabor madure. Depois de todo esse tempo, o mapuche se prepara para moer. Mói a pele e as sementes até conseguir pequenas escamas com tantos cheiros e sabores que contem. Podem adicionar sal de mar ou sementes de coentro, mas essencialmente o Merkén é “Ají” e paciência, e para mim, se posso dizer, é também a primeira e talvez a única valoração que fazem os nossos irmãos Mapuches. Graças ao Merkén o Mapuche chega à nossa mesa, come conosco, como nunca devia ter deixado de ser. Graças ao Merkén, meu irmão menor e eu, em silencio durante a comida, agradecemos a esse homem ou essa mulher que, com a sabedoria dos seus avós, desafiou o frio para colher, esperar, moer, e esperar mais ainda.

Esperar. O mapuche sempre espera. Espera como o Aimara no Peru, como o guarani no Brasil. Espera respeito, espera voltar ouvir cantar o ar, voltar sentir a terra debaixo dos seus pés. Voltar a ouvir falar sua língua, ou que em todas as partes do mundo exista um “Merkén” que o tire, nem que seja por um momento, desse ofensivo esquecimento ao que estão submetidos.

 

7 COMENTÁRIOS

      • Olá Paula, tudo bem?
        O Merkén está feito em base a pimenta vermelha (Ají panca, Capsicum annuum) defumada, misturada com sementes de coentro tostadas e sal. Todos os elementos são moídos em conjunto e viram um pó que os Mapuches chamam de Merkén. 🙂
        Em Santiago é possível entrar as sementes do Ají Panca, também conhecido no Chile como “Cacho de Cabra” em diferentes supermercados como Jumbo, Lider, Sodimac, Easy, Etc…
        Um abraço. =)
        Ají Cacho de Cabra ou Panca

  1. Pergunta importante: Posso comprar um pouco de merkén para trazer para casa? Como conservar para manter as qualidades originais? Onde posso comprar? No Mercado Central?
    Adoro temperos especiais.
    Muito grata, pelo seu comentário comovente, por abrir um pouco da sua alma mapuche para nós!
    Abraço.
    Ida Sartori

    • Olá Ida, tudo bem?
      O merkén pode ser comprado tanto nas feiras, como no mercado central ou nos supermercados. Você encontrará na parte de temperos.
      É um prazer poder mostrar um pouco da cultura Mapuche da qual somos tão orgulhosos.
      Muito obrigado por ler o nosso blog.
      Um grande abraço! 😀

  2. Compramos Merken em pote no mercado e compramos sal com merken (a pipoca fica uma delicia). Compramos no Tottus e vimos no Jumbo tb.

    • Oi Alex, que boa dica! O Supermercado Jumbo têm muitos produtos feitos com merkén, por exemplo, o hummus,que é uma delicia!
      Muito obrigado pelo seu comentario!

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