Começa lentamente a desaparecer a neve sobre os Andes chilenos. Aquilo que brilhava intensamente de brancos e azuis, aqueles flashs que com flores frias enchiam a cordilheira, começam a desaparecer lentamente para deixar a terra aparecer, a única que nunca abandona a paisagem andina, mesmo que não a vejamos. Aparecem cactos, romeiras, espinhos e lírios, que tiram proveito dessa nova umidade renovada para reaparecer.  

Sempre nos perguntam se vale a pena visitar os Andes chilenos durante o verão, especialmente centros de ski como Valle Nevado e Farellones, uma vez que toda a intensidade do inverno tenha terminado. Então, como sempre, les respondo com uma história.   

Em vários outros posts já comentei que eu nasci e me criei no sul do Chile, um lugar no qual a cordilheira dos Andes já perdeu forma, altura e por isso, sua majestade. Na minha vida, a cordilheira foi, por muitos anos, a estrofe de uma canção, alguns versos de Neruda que decorei na memória, fotografias que se enviam a quem teve que partir. Mas um dia tive que sair de Valdivia…Cheia de florestas e chuva, o primeiro que vi ao chegar, foi uma cordilheira colossal, coberta de neve que, dentro da minha nostalgia, falhou em me receber. E assim continuou por anos, quando ela me lançava das alturas suas estrelas cintilantes, eu respondia com a minha nostalgia de folhas verdes…

Até que um dia de janeiro, Diego e eu, estrangeiros nessa terra, decidimos pegar nossa pequena moto e percorrer as 60 curvas que nos levariam a Valle Nevado, um dos picos mais acessíveis dessa parte do mundo. Foi uma viagem mais longa do que o normal, falo de uma realmente pequena, onde o único grande e intenso era nossa vontade de chegar lá em cima.

A medida que subíamos, a paisagem se despovoava, desapareciam casa, cães, ruído. Umas tantas curvas e éramos ´so nós dois, um vento frio e grosso, a pele dos Andes dormindo, aveludando ao redor de nós e um silêncio que desconhecia e que me senti privilegiada em presenciar por primeira vez na minha vida. O som dos pássaros, o crepitar do fogo e da lenha, que é característico do ruído do silêncio sulista, agora tinha sido trocado por um silêncio estrelar, um silencio de condores distantes, um silêncio de montanha que emerge a partir do centro da terra.

Nos sentamos no que acreditamos ser a pedra mais alta e, com uma térmica cheia de café, ficamos ali parados, sem falar durante um segundo, vendo a milhares de cores que o sol pode ter sobre uma terra milenar, fotografando uma paisagem que por todos os cantos deixa espaço para transitar o olhar para onde queira.

É uma paisagem mental, alguns diriam. Concordo, mas também penso que é uma paisagem espiritual, onde querendo ou não, nos veremos obrigados a olhar algum lugar da alma que ainda não nos atrevemos a ver.

Dica: Farellones oferece uma amplia variedade de atividades outdoor para realizar durante o verão. Assim que termine a temporada (aproximadamente no mês de outubro), poderá encontrar toda informação neste link: http://www.parquesdefarellones.cl

 

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