Quando alguém nos pergunta se estamos cansados desta paisagem, depois de ter recorrido uma e outra vez, a resposta sempre nos faz lembrar a última vez que vimos a luz aparecer pelo meio dos morros. Depois de dois anos de intensa relação com a língua da cordilheira, ainda nos surpreendemos no meio do silêncio, tirando fotos de uma paisagem que nunca conheceremos de memória. Em nossa última viagem, voltando para Santiago, foi necessário parar o Jeep na frente do soberbo azul da água do Embalse el Yeso que, com a luz da tarde, abriu os braços, ou talvez fechou os olhos e se apresentou na nossa frente com um corpo desconhecido. Estes são o Embalse El Yeso e as Termas del Plomo, se vocês me perguntam. Uma mistura de cores e luzes que moram, se apresentam e se escondem no meio das montanhas, no profundo vaivém da água, no voo majestoso do Condor.

Um dia nas Termas del Plomo, significa começar a viagem bem cedo e seguir caminho ao Cajón del Maipo. Logo de subir pelo Camino al Volcán, chegamos ao povoado de San Gabriel, e nos preparamos para uma parte de caminho de terra, não muito longo, mas pela complexidade requer lentidão, e um motorista conhecedor das regras do caminho. Estamos na rota que leva à mina El Romeral e enfrentamos gigantes caminhões que levam e trazem materiais.

A imponência da Cordilheira do Andes no caminho até o Embalse el yeso e até as Termas del Plomo no Chile

Existe certo protocolo, às vezes implícito, entre os motoristas que só com um gesto podem avisar que é necessário esperar, para que um grupo de até dez caminhões passem, quase sempre cumprimentando amistosamente, se te conhecem. O caminho até o Embalse el Yeso e até as Termas del Plomo é desobediente, vai te colocar mil armadilhas se você olhar pra ele com desprezo. E esta é só uma das pequenas lições de humildade que a cordilheira nos dá. Mas se você mostra respeito, ela te deixará percorrê-la e aí você vai entender que a lentidão que te obriga a parar é uma espécie de pacto que o caminho fez com a paisagem que nos rodeia. É a obrigação de olhar, decifrar as cores das montanhas que através de camadas de sedimentos te contam uma história mineral, ou perseguir o leito do rio Yeso, que como uma criança que descobriu algo maravilhoso corre inquieto entre as pedras. Então algo acontece; podem não acreditar, mas o ar fica quieto. Nós, que conhecemos o caminho, nos acomodamos no banco do Jeep e preparamos a alma. A nossa direita o Glaciar Mesón Alto somente escuta. Uma curva e a paisagem se abre, as montanhas parecem ter se separado por milhares de anos só para dar espaço ao milagre que contém: estamos na frente do Embalse el Yeso, na frente de 250 milhões de metros cúbicos de água de degelo, na frente do núcleo sempre vivo deste lado da Cordilheira dos Andes. Sua água é vital, porque poderia abastecer a cidade de Santiago completa por um ano. Por isso, representa fertilidade, esperança; a bondade de uma natureza que as vezes é hostil, mas que sempre entrega em troca algo ainda mais poderoso.

Continuamos o nosso caminho, que cada vez fica mais exigente, mas também cada vezmais lindo. Veremos enormes áreas úmidas de pasto fresco: as Vegas, milagrosas águas que sustentam a vida de animais guiados pelos silenciosos Arrieros (Tropeiros), ou pequenos ribeirões de águas claras que se abraçam por momentos, para logo se perderem e se re-encontrarem infinitas vezes.

Passaremos pelo vale Las Yeguas Muertas, que através de um caminho de pedras nos guiará até as definitivas águas das Termas del Plomo: duas poças de águas naturais e milenárias, esquentadas pela eterna energia do vulcão San José. Rústicas, o homem só esteve nela para nascer de novo.

Quem consegue fazer desta experiência até o Embalse el Yeso e até as Termas del Plomo um parêntesis no meio das batalhas da vida cotidiana, pode entender que o seu calor é a forma em que o caminho recompensa tanta espera, tanta poeira, tanta vertigem das alturas impensadas. Mas só quem consegue que esta experiência seja o começo de algo novo, verá nestas águas, nesta poeira, nesta vertigem, a resposta para a pergunta que nós fizemos tantas vezes.

Porque, quem sabe, pode ser que a resposta da pergunta seja esta: que a gente esteja vivo só para ver esta água, para respirar esta poeira, para viver esta vertigem.

 

Este é o nosso passeio Cordilheira Essencial, para conhecer o itinerário clique aqui.

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