A nossa intenção sempre foi ser mais que um blog de turismo. Acreditamos firmemente que quem assume a tarefa de mostrar a terra que habita deve ser muito mais que um guia. Deve ser um interlocutor do espacio que habita, da sua cultura, do seu patrimônio.

Como sabem, Setembro é um mês muito especial para os Chilenos. É o mês da pátria, mas sobre tudo, o mês que a história do Chile mudaria radicalmente e para sempre. Hoje, a quarenta anos do golpe de estado, falar das feridas que nos deixou não significa falar desde uma opção política. Implica falar desde a humanidade, desde a dignidade de não esquecer, porque esquecer implica repetir, implica desmerecer as fissuras que ainda padecem aqueles que perderam a quem amaram, a quem perderam voz, a liberdade.

Decidimos não fazer este post no dia 11 de setembro, dia que se recorda a ação golpista do exército de Pinochet, se não fazer hoje, 17 de setembro, um dia depois em que um dos portadores do Chile que foi interrompido, deixou de existir como consequência de uma massacre entre irmãos que só hoje, cumprindo quatro décadas do golpe, há quem consegue reconhecer.

Um dia como ontem, tão nublado como ontem, em Santiago do Chile, morre Victor Jara. Quem foi um dos cantores e compositores mais relevantes na história do nosso país, diretor de Teatro, professor e militante ativo do partido comunista, é torturado durante quatro dias no estadio Chile, usado como campo de concentração, (lugar que hoje leva seu nome) golpeado nos dedos com a culatra de um revólver até quebrar cada um deles, submetido a simulacros de fuzilamento, queimado com cigarros em diversas partes do corpo, para logo ser cravado por 44 disparos de bala.

Seu corpo foi abandonado em um terreno baldio para ser encontrado por moradores quatro dias mais tarde.

Seu delito foi o de muitos, de fato, o de quase todos os que pereceram. Abraçar com convicção uma idéia de país, acreditar na igualdade, por de manifesto a enorme dignidade da pobreza, e profundo caudal que radica na história de cada pessoa anônima que se levanta na manhã para, com o trabalho de suas mãos, fazer andar a pátria que acredita possível.

Na voz de Victor Jara latiu o coração do obreiro, da empregada doméstica, do operário, do poeta, do perseguido. No seu violão cobrou vigência a dor de uma América Latina ferida, vencida, esquecida. Uma América Chilena, Peruana, Argentina, Boliviana, Brasileira, cheia de gente ferida e esquecida, da que hoje só falamos porque existiram alguns, como Victor Jara, que não tiveram medo de fazer.

Hasta siempre, amigo Victor.

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