Cafés em Santiago: o Café de la Candelária

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Café de la Candelária

Dentro do bairro Itália encontraremos muitos lugares que parecem se proteger da convulsão da cidade. Nas grandes construções antigas, pequenas lojas com produtos que parecem não existir em nenhum outro lugar da cidade se escondem entre seus pilares. Entrar nele é se preparar para encontrar lugares que vão nos falando de um ritmo diferente, de uma espécie de espaço paralelo, onde é possível estar absolutamente conscientes da cidade na qual estamos, mas ao mesmo tempo divagar e entrar em lugares que só existem no imaginário de cada um.

Um desses lugares é o Café de la Candelária, localizado em uma galeria de mesmo nome. Nisso estava quando entrei aqui: procurando um café em Santiago onde fosse possível abrir um livro que me deixasse, sem me prender na realidade, transitar por essas páginas maravilhosas. Por isso, ao entrar no Café de la Candelária não duvidei em ficar e tratei de escolher entre os belos cantos criados como pequenos palcos cotidianos, um que gerasse em mim a necessidade de permanecer nele e não querer sair jamais. Acomodei-me perto de uma estufa alta (aquecedor a gás) que me agasalhava com seu imponente calor, muito perto também de uma linda fonte de água que não para de emanar um delicioso som transparente. Flores frescas na mesa, toalhas de pano, diminutas lâmpadas acesas a qualquer hora do dia, imagens, figurinhas, tesouros extraídos da memória e que alguém pareceu se esquecer para deixá-los ali como marca de um tempo que passou. Pousando o meu olhar em cada esquina, em cada tramo deste lindo café em Santiago, foi que uma florida chaleira se depositou na minha branca toalha: chá preto com pétalas de rosas.

Para acompanhar, decidi que para um dia frio como aquele eu precisava de um prato forte, que me animasse a continuar com a minha rota. Paula, a garçonete muito atenta que me atendeu, me recomendou o crepe da casa, o qual consiste de uma fina massa recheada com carne de boi cozida durante horas a fogo lento em cabernet sauvignon e verduras. Abraçado pelo calor de um bechamel com roquefort, o prato culmina com um dourado gratinado de parmesão na sua capa.

O prato não demorou mais de dez minutos em chegar à minha mesa. Me surpreendeu a abundância e os maravilhosos odores que expeliam e me deixaram por um tempo recordando alguns sabores da minha infância: o molho que se desfaz em pequenas linhas onde o queijo se estica até desaparecer no calor que o consumiu. Eu, a esta altura, já estava muito longe do que lá fora acontecia. A cidade, a convulsão, as buzinas e a interminável frequência tricolor dos sinais de trânsito tinham sido substituídas pelo som da água como única trilha sonora, por um silêncio que circulava e que nos deixava contagiados pela necessidade de não dizer nada, de apenas ser através da contemplação que nos rodeia.

Um outro ponto a favor do Café de la Candelária são os preços. Podemos degustar um doce com $650 pesos chilenos, que é quanto custa um “galletón”, além de poder almoçar todos os dias com um menu a só $4.990. Na despedida pude conversar com Claudia, uma das donas deste café em Santiago e que me atendeu com o calor de um anfitrião que tem esperado com a mesa servida durante longas horas para receber aos seus convidados.
Ela contou da receita da maravilhosa do crepe e eu comentei sobre nosso projeto e do importante que era para nós que vocês saibam que a mais de 3.000 km de distância do lugar onde moram, tem gente que os espera com esse entusiasmo e carinho. Assim começa a história de amizade entre a Indo pro Chile e o Café de la Candelária. Porque é necessário entender que os viajantes entregam muito ao nosso país, e por isso devem levar o melhor de nós. Um profundo amor pela cidade que habitamos e a necessidade de entregar esse amor através da vocação que enche nossa vida.

E no Café de la Candelária eles também entendem muito disso.

Onde fica o Café de la Candelária? Av Itália 1449, Galeria La Candelária, Providencia, Santiago.

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